Caminhar é desobedecer

Por Pro Coletivo

Sem aglomerações, sem ficar em espaços fechados, sem contato físico. Parece difícil passar o Carnaval assim, mas essa conta é essencial. A Covid-19 eclodiu em 2020 logo depois do Carnaval e, um ano depois, com eventos, blocos e festas devidamente cancelados, temos a necessidade de aprender a curtir de outra forma. Como? Andando a pé pela cidade, batendo perna por lugares com natureza, como praças, jardins e parques. Exercitando a caminhabilidade, que é a capacidade de se apropriar do espaço da cidade de forma ativa.

Caminhar é a forma mais democrática de se locomover. Andando, imprimimos um ritmo próprio e original ao passeio, enquanto observamos o entorno e o vaivém das outras pessoas. E as cidades devem estar preparadas para acolher todos os tipos de pedestres – adultos, crianças, idosos e especialmente os que têm limitações físicas e deficiências, usando cadeiras de rodas. Cidades inclusivas reestruturam seus espaços de acordo com a escala do pedestre.

Andar a pé (assim como o pedalar) diz respeito à saúde pública e ao bem-estar nas cidades. Metrópoles que estimulam e facilitam a caminhada como meio de transporte elevam a qualidade de vida da população.

O filósofo francês Frédéric Gros, autor de “Caminhar, uma filosofia” e “Desobedecer”, faz em seus livros uma ode à caminhada como exercício de liberdade, por estabelecer uma relação particular do corpo com o mundo e abrir o caminho para o pensamento, para a filosofia.

Segundo Gros, grandes pensadores encontraram inspiração caminhando: Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud adoravam andar a pé. Em seu livro, ele conta que as caminhadas do jovem poeta francês Arthur Rimbaud ajudavam a extravasar sua raiva, enquanto o filósofo e escritor alemão Friedrich Nietzsche imprimia uma energia própria na sua marcha rápida. Já Immanuel Kant era metódico: saía todos os dias no mesmo horário e fazia a mesma rota.

Sem falar ainda do líder indiano Mahatma Gandhi e sua política de resistência, que, em março de 1930, para protestar contra o domínio colonial britânico, que proibia a extração do próprio sal pelos indianos, fez história ao caminhar 400 quilômetros para apanhar um punhado de sal.

“Andar nos ensina a desobedecer. O caminhante se retira do conforto e da segurança que fazem da obediência algo tão sedutor”, diz Gros. Pode ser um ato de resistência, de inconformismo e de desobediência frente a um sistema de dominação. Um ato que irá trazer energia, ativar o humor, melhorar a circulação sanguínea, combater a depressão, tonificar os músculos… Só alegria.

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