A favor da 'desmobilidade'

Por Pro Coletivo

“Sem mudar a cultura e a mentalidade das pessoas não vamos melhorar as nossas cidades.” A afirmação é do cientista franco-colombiano Carlos Moreno, da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne, criador do conceito “Cidade de 15 Minutos”, e assessor especial de Anne Hidalgo, prefeita de Paris.

Nesta terça 26, em uma live organizada pela plataforma São Paulo São, da qual o Pro Coletivo participou – ao lado do mediador Mauricio Machado e dos urbanistas Nabil Bonduki, Ana Paula Wickert e Marcos de Oliveira Costa –, Carlos Moreno falou sobre a importância de implantarmos cidades descentralizadas.

No sistema que ele desenvolveu, e que vem transformando cidades no mundo todo, os bairros devem ser autossuficientes, com ofertas de emprego, serviços de saúde, de educação, de cultura e lazer, e com edifícios com funções múltiplas, agregando moradias, comércio etc. Isso favorece o uso de bicicletas, induz a caminhadas e reduz os deslocamentos.

“Por que nos movemos e temos que nos transportar tanto? Por que passamos tantas horas diárias no trânsito? Em algumas cidades chegamos a perder no transporte um dia inteiro ao longo de uma semana. A Cidade de 15 Minutos surgiu como um projeto de desmobilidade”, ele define. “Uma desmobilidade que possa converter as horas passadas no transporte em tempo útil, social, pessoal, ecológico, com menos CO2”, disse Moreno durante a live.

Segundo ele, recuperar o tempo é um ato importantíssimo hoje, uma vez que o capitalismo moderno converteu a vida em “uma existência completamente cronometrada”.

E o cientista observou que a pandemia, com todos os desafios e dificuldades, acabou trazendo a cultura do teletrabalho, que se encaixa nos parâmetros dessa cidade policêntrica, voltada para o bem-estar das pessoas e com muita oferta de serviços, áreas verdes e espaços.

Pode parecer utópico para nós, mas não é impossível. O urbanista Nabil Bonduki destacou a importância de criar polos de desenvolvimento e trabalho nas periferias para evitar os movimentos pendulares, desgastantes e poluentes. “No Brasil, se chegarmos a uma cidade de 30 ou 40 minutos já será uma evolução”, afirmou.

Mas para Carlos Moreno não haverá transformação se não mudarmos o comportamento e a atitude das pessoas. “Em alguns países persiste ainda uma cultura baseada no carro, e isso é destrutivo para qualquer cidade. Em Bogotá, cidade de oito milhões de habitantes, não houve investimento em transporte coletivo e os ricos e a classe média querem mostrar o seu status social com seus carros. Isso é o contrário de uma democracia. Por isso é fundamental investir na educação, especialmente dos jovens, mostrando a relação entre as mudanças climáticas e o uso do carro. A mobilidade está ligada ao clima, à saúde e à qualidade de vida”.

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