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Sem filtro

Dia desses li um texto no qual seu autor citava um pensamento de Albert Einstein sobre patriotismo: “Heroísmo no comando, violência sem sentido e toda detestável idiotice que é chamada de patriotismo – eu odeio tudo isso de coração”, foi o que expressou o gênio para definir seu sentimento sobre uma das mentiras incutidas na mente do alemão médio que apoiou o regime nazista cujo resultado todos conhecemos.

É evidente que o cientista, judeu de nascimento e obrigado a fugir da Alemanha para os EUA para salvar a vida própria e da família, não falava do amor pelo solo, das reminiscências infantis, da sensação de ver a seleção nacional de alguma coisa disputando uma final, das imagens de cartão-postal que qualquer lugar deste nosso mundão, bem clicado por um fotógrafo talentoso, permite produzir. Falava Einstein do discurso viscoso, do estelionato moral, da mentira sórdida que a elite dominante, seja ela de qualquer tendência política ou “lado ideológico”, espalha desde os mais modestos bancos escolares até os mais requintados salões, visando anestesiar a sociedade ao argumento de que, por mais desonrosa e medíocre que seja a situação em que se vive, dentro de cada coração nacionalista deve vibrar incontido o mantra “pátria amada, salve, salve” emoldurado por um discurso ultrafofo que diz “não quero me mudar do meu país, quero mudar meu país”.

Fácil pensar assim quando se faz parte de um cada vez mais restrito grupo de nacionais que têm perspectiva, que ainda podem, pelos seus méritos e patrimônio, oferecer a si mesmo e aos seus filhos uma hipótese de Brasil grande, pujante, vitorioso. A verdade nua e crua é que aquele Brasil que sonháramos nas aulas da Tia Fulaninha, nos eventos com hino e pompa no colégio, nos jogos de Copa ou outros momentos de congraçamento verde-amarelo acabou, apodreceu, foi retalhado, roubado, contaminado.

Dezenas de milhões de crianças, nascidas ou ainda por vir, já estão condenadas à mediocridade laboral, às faixas de “cidadania” nas quais o maior feito da vida é ganhar um ingresso num programa de rádio para um show de Wesley Safadão. O tal patriotismo, ou qualquer nome que essa lorota mereça, impunha (o verbo vai no passado mesmo porque não há mais tempo de se impor nada) respeito recíproco, dignidade recíproca, cuidado recíproco, amor recíproco. Isso não há, tampouco já houve. Deveras fácil falar de Brasil, seu futuro ou seus problemas rodando o dedo na borda de uma taça de vinho.

Complicado é fazê-lo dentro de um ônibus lotado, no corredor de um hospital sem leitos, debaixo de goteira numa sala de aulas de periferia ou no saguão do IML, aguardando o corpo de um familiar assassinado ou moído numa rodovia esburacada. Precisamos inventar um país novo para amar.

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