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‘Galo certo’

Elias no Galo e Ramiro no Grêmio: dois volantes que vêm atuando como meias pela direita num 4-2-3-1. Observando a atuação do primeiro diante do São Paulo, e do segundo contra o Cruzeiro, algo que já percebia há um bom tempo tornou-se ainda mais cristalino: a versatilidade destas peças transcende – e muito – o famigerado mantra “marca e sabe sair para o jogo”; a utilidade tática principal destes dois ótimos jogadores, no sistema atualmente utilizado por suas equipes, reside na maneira inteligente, dinâmica e eficiente com que ambos ocupam, digamos, duas partes do campo, sabendo o momento exato de preencher cada uma delas.

Abertos pela beirada, estes atletas fazem parceria com seus laterais para evitar superioridade numérica inimiga no cantinho do qual tomam conta. Como volantes de origem, contudo, donos de ótimo poder de marcação, de fôlego invejável, e privilegiada capacidade de leitura da partida, esses caras possuem facilidade para observar quando a permanência pela direta seria dispensável – pelo fato de a bola estar trafegando pelo centro/esquerda da defesa, por exemplo; a partir daí, no instante apropriado, povoam o centro, se deslocam para lá, dificultando a infiltração do oponente por esse miolo.

Balanço defensivo, movimentação em bloco, compactação, futebol apoiado? Conceitos importantíssimos para a competitividade no jogo atual que se entrelaçam, são alcançados na prática pelo menos em parte com o salientado exercício desses dois polivalentes. Para completar, melhorar de vez? Além da aptidão para decidir por onde flutuar em cada jogada de um duelo, Elias e Ramiro têm predicados que combinam com ambos os labores aqui destacados; apresentam solidez, certa firmeza típica de quem precisa sustentar o meio, e fluidez, dinâmica, resistência recomendáveis para quem há de resguardar o flanco.

Numa entrevista já razoavelmente longínqua, Roger disse que não se via escalando três volantes. Afinal, atuando assim deixaria as extremidades vazias no momento defensivo. Conforme expliquei em outra coluna, o excelente treinador alvinegro não entrou em contradição ao juntar Carioca e Elias a mais um marcador – o último, essencialmente, passou a ser meia pela direita. Em grande medida, Roger tinha razão nesta fala que citei. O 4-1-4-1, por exemplo, pode até contemplar os dois mundos, ou seja: unir três volantes a um desenho em que os lados não ficariam desguarnecidos. No 4-2-3-1, por outro lado, você usualmente soluciona, ao menos em teoria, a questão do bloqueio pelas pontas.

O preenchimento do meio, entretanto, no futebol tático, físico, de extrema mobilidade e velocidade de hoje, com apenas dois marcadores, pode virar um problema em determinadas circunstâncias. Logo, a presença de uma opção entre os titulares que concretiza o trabalho duplo acima mencionado, a possibilidade de “resolver dois espaços com uma só peça” pode ser uma mão na roda e um fator de desequilíbrio dentro do xadrez futebolístico.

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