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Condenação social

Um dia chuvoso e frio, bem me recordo, estávamos eu e um amigo no Tortoni, histórico Café no centro de Buenos Aires, jogando conversa fora, falando sobre os problemas do mundo e aproveitado um pouco do cotidiano do argentino comum, que se junta às centenas aos turistas e aos “habitués” daquele ponto quase centenário da capital vizinha. Em um determinado momento, um senhor de sobretudo azul – minha avó diria “muito bem-apessoado” – sentou-se à mesinha diante da nossa e pediu um café, no que foi instantes depois atendido pelo garçom. Enquanto bebia, o ambiente continuava indiferente à sua presença, mas tão logo repousou a xícara no pires, começamos a ouvir o som de talheres batendo contra copos de vidro, que foi aumentando e tomando conta do grande salão principal. Com exceção de algumas pessoas como nós – certamente turistas também –  e do homem de sobretudo azul, todas as mesas ao redor participavam dessa curiosa cena. Ele fez um gesto, o garçom veio já com a conta na mão: deixou-a sobre a mesa. O homem levantou-se, pegou uma nota na carteira e deixou-a sobre a conta, saindo do local enquanto o barulho em questão diminuía até parar por completo ao som da porta de saída que fechava atrás dele. Curioso como sempre e sem medo de ter errado no diagnóstico das circunstâncias, perguntei ao garçom quem era o tal homem:  “ – Esse sujeito foi deputado eleito pela capital na época de Menem (ex-presidente argentino). Foi preso acusado de desviar verbas de um programa de saúde de uma província do interior. O processo não chegou a ser julgado porque ele enrolou o quanto pôde a Justiça. As pessoas aqui não podem impedi-lo de frequentar ambientes públicos, mas não toleram sua presença e protestam assim em todo lugar que ele vai. Aqui é assim. O sujeito pode até ser desonesto, mas a sociedade não aceita conviver com ele.” Grande lição de cidadania, de decência, de dignidade, para nós, brasileiros, que convivemos, nos elevadores de nossos prédios, nos restaurantes, nos eventos públicos e tantos lugares mais, como nas propagandas eleitorais pagas com nosso dinheiro, com a cara de pau desses pilantras, que surrupiam de todas as maneiras recursos públicos e a cada dois anos vêm pedir voto para continuarem sua sanha criminosa. Processos judiciais justos (e todos temos direito à defesa plena) não impedem condenações imediatas pela opinião pública. Corruptos devem pagar o preço pelo crime que cometeram e esse preço inclui a repulsa, a repugna, o incômodo de sentir-se confrontado publicamente com a gravidade de seus atos, de sua traição ao voto recebido. Isso faz com que a vergonha lhe imponha, no mínimo, a reclusão moral, o esconderijo, o exílio da indignidade. Isso lava a alma da sociedade.


* O texto publicado neste espaço é de responsabilidade do autor

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