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Os bons companheiros

antonio-carlos leite colunista Muito já se falou sobre os aspectos jurídicos e constitucionais  da decisão do Senado de fatiar a votação do impeachment e conceder à ex-presidente Dilma Rousseff um tipo de anistia extemporânea. Também muito já se falou sobre os caminhos dessa decisão, articulada por aliados da presidente com o auxílio luxuoso de Renan Calheiros e do presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Ainda vai se falar muito sobre a possibilidade de a decisão ser revista ou não pelo STF, se ela vai ou não beneficiar Eduardo Cunha, se Renan ajudou na articulação pensando em também ser “anistiado”, caso todas as denúncias surgidas contra ele evoluam para um processo de cassação no Senado.

São questões importantes. Mas bem mais importante é o fato de essa articulação dissecar e expor o abandono a que está relegado o país diante da alta cúpula de todos os poderes da República. Sobre o Executivo, é desnecessário falar: o impeachment fala por si. Na Câmara, tínhamos, até dias atrás, um presidente mergulhado nos mais variados tipos de denúncias. E agora, numa sessão histórica (por marcar um ponto importante da nossa história política), o presidente do Senado, atolado num número de denúncias superior ao de seu companheiro de comando do Legislativo, se alia ao presidente do Supremo, ocupante do mais alto cargo do Judiciário, e a parlamentares ligados à ex-presidente para  burlar a Constituição sob os olhos esbugalhados da nação. Não se tem notícia de algo igual: o estupro à lei maior foi transmitido para milhões de brasileiros, ao vivo, sem se notar nem mesmo um rubor no rosto de quem praticava o ato.

Pedir que os participantes da sessão ficassem enrubescidos é demais: o rubor é característica de quem tem vergonha na cara. Senadores não se envergonham. Horas depois de quase partirem para a briga no plenário, ainda na fase de discussões, Renan Calheiros e Lindbergh Farias foram jantar juntos em Brasília. Talvez para acertar o fatiamento da votação do impeachment, já do conhecimento de Ricardo Lewandowski, comunicado à articulação muitos dias antes da sessão (por isso estava preparado para dar uma resposta tão completa dada diante de um pedido de destaque “de última hora”).

Juntemos o cinismo dos peemedebistas, a concordância interesseira do presidente do Supremo, às vésperas da votação do aumento do salário do STF, o silêncio obsequioso dos petistas e temos um quadro perfeito de como agem nossos homens públicos: eles se acertam e se cumpliciam, como integrantes de uma camarilha. Publicamente, encenam um conflito, inexistente na prática, porque nos bastidores são bons companheiros, mancomunados para resolver seus problemas, como se não tivessem de dar satisfação de seus atos. Ou a sociedade expurga essa figuras do comando dos poderes, ou esses poderes acabam levando de vez a nação para um descaminho de sofrimento e dor. A escolha é nossa.

Antonio Carlos Leite é jornalista há 28 anos. É diretor de Redação  do Metro, diretor de Jornalismo da Sá Comunicação e escreve a cada 15 dias neste espaço.

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