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Haja paciência

carlos-lindenberg-colunistaCom um pouco mais de esforço, o deputado Eduardo Cunha, afastado do mandato e da presidência da Câmara dos Deputados, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) vai acabar se tornando o grande vencedor de toda essa confusão que ele arrumou, desde que recebeu vários milhões de dólares de propina de fornecedores da Petrobras. Ontem, numa inescrupulosa combinação de seu poder como presidente da Câmara, mesmo que afastado, e de sua influência no governo interino do presidente Michel Temer, Cunha conseguiu o feito de ver a sua condenação no Conselho de Ética começar a derreter graças ao relatório do deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF) que, na Comissão de Constituição e Justiça, pediu a anulação do julgamento no Conselho. O motivo? O de que a votação que o condenou não poderia ter sido nominal, mas pelo painel eletrônico. Como se vê, um motivo e tanto.

O que não se explica é por que o deputado Ronaldo Fonseca, um aliado de Cunha, foi escolhido relator da CCJ e, pior, porque um indicado dele – José Ricardo Marques – foi nomeado pelo presidente interino Michel Temer para a Direção Geral do Arquivo Nacional, conforme publicado também ontem no Diário Oficial da União. São essas coisas que abalam a confiança em instituições que precisam do reconhecimento público para consolidar a sua legitimidade, como a Câmara dos Deputados e, por extensão, o Congresso Nacional. Quando a sociedade assiste a manobras dessa natureza, é comum perder a respeitabilidade pela instituição. Logo o legislativo, normalmente o mais vulnerável entre os três poderes da República e o mais representativo por sua diversidade e pela natureza de sua representação. É ali, mais do que no Judiciário e no Executivo, que se expressa a alma da nação.

O deputado afastado Eduardo Cunha tem sido useiro e vezeiro nas manobras políticas para se safar da punição que certamente virá. A de ontem não foi a última. Deve ter sido a décima, se levar-se em conta o que ele e seus aliados fizeram no Conselho de Ética. O recurso à CCJ foi um atalho que ele usou para evitar que a decisão do Conselho chegasse ao plenário, onde certamente ele perderá o mandato por quebra do decoro parlamentar – também um sofisma porque não é exatamente disso que ele está sendo acusado. Na verdade, as acusações contra Eduardo Cunha no STF vão além, muito além, de uma mentira. Ele é acusado de receber dinheiro de propina de fornecedores da Petrobras e mandar esse dinheiro para fora. Essa é a acusação. E por ela deverá pagar.

Carlos Lindenberg é colunista do Jornal Metro. Escreve neste espaço às quintas.

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