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Sem escrúpulos

antonio-carlos leite colunista Talvez o nosso maior problema não seja a inflação crescente, nem a corrupção disseminada ou a crise econômica avassaladora. Muito provavelmente nosso problema maior seja o cinismo. É ela quem norteia o trabalho de marqueteiros, autores de campanhas eleitorais lotadas de mentiras, capazes de vender uma realidade paralela e virtual para milhões de pessoas. Com um sorriso cínico, nem sempre exposto, eles se justificam afirmando “estar fazendo seu trabalho”. Ou presidentes e ex-presidentes, capazes de moldar a realidade de acordo com seus interesses. Mas o grande e insuperável show de cinismo e despudor em relação à opinião pública vem sendo dado nas últimas semanas pelo presidente da Câmara e seus asseclas na Comissão de Ética. Tal qual um Paulo Maluf revisitado (mas sem a verve do político paulista…), Eduardo Cunha mentiu, mente e continuará mentindo. O político paulista ao menos entra no jogo da mentira de maneira aberta: ele mente, sabe que o interlocutor tem consciência da mentira, mas continua mentindo mesmo assim… Cunha, não. O deputado carioca calça a máscara da canalhice regimental e posa para o país como se fosse um exímio conhecedor das regras da Câmara e, por isso, consegue conduzir o parlamento para onde quer. Mais: conta com uma certa imbecilidade da opinião pública. Dá para imaginar o presidente da Câmara falando para assessores e parceiros de história política cinzenta, como Paulinho da Força: “Vou argumentar assim e assado. Eles engolem. Não têm como contra-argumentar. Ainda saio como a imagem de grande entendedor dos regimentos da Casa”. Quem teve o desprazer de acompanhar as longas e inúteis sessões do Conselho de Ética da Câmara viu: Cunha não entende de regimento, nem de manobra. Entende mesmo é de truculência. Como bem definiu um dos muitos delatores que o envolveram na Lava Jato, ele não tem aliado, tem pau-mandado. Um deles, seu vice-presidente na Mesa, deu uma canetada para tirar da função o relator de seu caso no Conselho de Ética. Outros, membros do conselho, chegaram até a agredir seus outros deputados, sem contar a maneira grotesca como estendenderam o horário das sessões até elas coincidirem com o início dos trabalhos no plenário da Câmara, quando obrigatoriamente todas as comissões devem encerrar seus trabalhos.

Usar regras para se manter no poder a qualquer custo, desrespeitando tudo e todos, não é esperteza, é autoritarismo.  Cunha deve ser tirado de lá não só porque mentiu ao negar a existência de suas contas, mas trata com desprezo a opinião pública. A seu modo, repete Jarbas Passarinho na tristemente histórica reunião de definição do AI-5, a medida mais dura do governo militar. Para justificar o mergulho definitivo na ditadura, o então ministro mandou “às favas os escrúpulos”. Pelo menos, no caso de Passarinho, havia escrúpulos a serem ignorados. Não se sabe se Cunha sabe o que é isso…

Antonio Carlos Leite é jornalista há 28 anos. É diretor de Redação  do Metro, diretor de Jornalismo da Sá Comunicação e escreve às sextas-feiras neste espaço.

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