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A Supervia saiu dos trilhos há muito tempo

xico-vargas colunistaSe depois de passar por cima do corpo sem vida de Adílio Cabral dos Santos, 33 anos,  a Supervia não perder a concessão de transporte sobre trilhos – que detém desde 1998, num contrato que vai até 2048 – não perderá mais. Nada, absolutamente nada que essa empresa já fez, na sua história de maus serviços prestados ao cidadão, poderá ser pior do que decidir, fria e mal calculadamente, atropelar corpo de um suposto morto.

Diariamente, o usuário do transporte de trens é posto diante da dura constatação de que sua vida não tem valor. Vivo, é tratado como gado, chicoteado para dentro das composições, viaja apertado, com mulheres sendo abusadas, enquanto se espremem em vagões lotados para chegar em casa. Morto, tem o último reduto da sua dignidade violada.

Todas as semanas registram-se episódios de trens paralisados nas oito linhas que transportam moradores entre Zona Oeste e Baixada Fluminense e a Central do Brasil por um sistema ferroviário que está entre as piores modalidades de deslocamento urbano. Mais uma contradição da capital de um estado que se orgulha de inovar a mobilidade com o BRT, está plantando um moderno VLT, mas não é capaz de renovar o transporte de massa sobre trilhos. Talvez por ser o que também carrega gente como Adílio, pobre, ex-presidiário, morador do morro da Serrinha, vendedor de doces e balas nas composições lotadas. Mais um nas funestas estatísticas da negligência nos transportes.

A gravidade do que aconteceu com o corpo de Adílio será ainda maior se a decisão da concessionária for tratada com a naturalidade com que a empresa justificou a decisão: teria sido pior prejudicar o trajeto dos seis mil passageiros que carregava. Não, não teria, porque nada pode ser pior do que aviltar o corpo de um morto. As providências de sempre são insuficientes, embora o Procon esteja fazendo um bom trabalho ao questionar os serviços da Supervia para a justiça, embora, nas redes sociais, a indignação pelo corpo de Adílio se junte a tantas outras reunidas em páginas dedicadas a denunciar os maus serviços de trens.

Já se ouviram das autoridades as frases feitas de sempre (“Inaceitável”, Carlos Osório, secretário estadual de Transportes). Da concessionária, leu-se nota oficial explicando que “foi constatado que o trem que trafegou sobre o corpo tinha altura mais do que suficiente para fazê-lo sem risco de atingir e vilipendiar a vítima”, e da Agetransp mais uma vez o óbvio: vai cobrar os responsáveis para aplicar punições cabíveis. Estranho seria se não cobrasse. Mais estranho ainda é que entre as punições cabíveis não figure em primeiro lugar a imediata suspensão do contrato de concessão.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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