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Os Tempos e a Xuxa

jorge-nascimento colunistaHoje, seu ontem, comemora-se – ou relembrou-se – um ano do vexame da seleção, sete a um é demais para qualquer um. Estranho: as primeiras acepções do verbo comemorar têm a ver com recordação e não com celebração ou festa. Aquela velha história, um ano, uma fração do tempo que a natureza e a cultura nos impuseram, como passou rápido esse período. Não sei quantas coisas fiz ou deixei de fazer nesse intervalo: trabalhos, leituras, teses, dissertações, pessoas, cervejas, conversas em boteco… Mas a tarde chuvosa do ano passado parece bem próxima, mais a tarde que o nocaute da seleção.

Julio Cortázar, escritor argentino, se referia às coordenadas tirânicas do tempo e do espaço.  O poeta Mario Quintana fala que o tempo é um despertador, um velho paralítico que toca todo dia uma campainha e que se entristece porque as crianças que brincam de roda o ignoram e ele tem de desviar sua cadeira de rodas. E ocorreram tantas coisas ruins das quais falo de vez em quando. Não desejo dividir ou compartilhar esse inventário de atrocidades morais, religiosas, políticas, sociais que têm nos atingido.

Poderia falar dos ataques e insultos raciais contra a Maju ou do negro nu, ensanguentado e acorrentado que morreu de pancada no Maranhão, lá onde se cortam cabeças nas prisões. Como está lá na letra do samba: o dono da dor sabe quanto dói. Então peço ao tempo, aquele que se atreve às colunas de mármore e aos corações de cera, para “dar um time”: não venha me aprisionar os sentidos.

Então a rememoração e a historinha vêm, uma breve história do tempo, uma cena mundana e comum que tem o poder mágico de relativizar e trazer uma saudosa e angustiante alegria. Foi assim: a chamavam de Xuxa, uma cidadã das ruas do Rio, da Ilha do Governador. Negra, pequena, talvez 50 anos, com suas perucas coloridas, carnavalescas. Muitas vezes vestia roupas infanto-juvenis, penduricalhos, brincos, maquiagens, pulseiras. Era dessas figuras que parecem patrimônios imateriais e sem valor dos bairros. Fumava e bebia algo de álcool nos bares e botecos. Mas a história é que ela estava certa vez com um relógio da Barbie no pulso. Para tirar uma onda, logo com ela que não era de muita conversa e chegada a dizer impropérios, perguntei: E aí, Xuxa, que horas são? Ela me olhou, sondou o relógio e, depois de me dar uma olhada entre irônica e reflexiva, esticou o arco e mandou a flecha inesquecível: “Um tempão…”.

Jorge Nascimento é doutor pela UFRJ,   professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes e escreve quinzenalmente neste espaço 

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