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Os segredos do abismo

gustavo varella cabral colunistaUma frase de Nietzsche, filósofo alemão do século 19, nos alerta sobre um perigo recorrente nos tempos de crise: o pessimismo. Ele escreveu: “Se olhares demoradamente para dentro do abismo, o abismo olhará para dentro de ti”. Significados psicanalíticos ou outros deixados temporariamente de lado, olhemos o momento atual vivido no Brasil e algumas repercussões já sentidas no cotidiano. Vivemos nos últimos 12 anos uma ilusão de riqueza súbita turbinada pela sensação de estabilidade do real, pela inclusão social de muitos de nós outrora legados à marginalidade do consumo, pela entrada de capitais estrangeiros provindos tanto de países compradores de nossos produtos de exportação (minérios e comida, principalmente) quanto de investidores e especuladores que viam no país uma promissora banca de apostas. E o que fizemos com isso? Investimos? Melhoramos nossa capacidade de produção, nossa competitividade, nosso grau de instrução? Digo tanto do país quanto de cada um de nós individualmente!  Aumentamos as reservas? Aprendemos a poupar? Absolutamente! A esmagadora maioria de nós, cidadãos consumidores, fizemos exatamente o contrário: afundamos o pé no acelerador do consumo, nos endividamos sob a ilusão do interminável fluxo de recursos, esquecemos que fases econômicas são cíclicas, torramos montanhas de dinheiro comprando bugigangas inúteis apenas pela sensação de poder fazê-lo. E agora? Não há mágica capaz de reverter a crise que vivemos. Por mais que se esforcem alguns maquiadores para dizer que após “o ajuste fiscal” ou “quando Deus der bom tempo” as coisas vão retomar seu curso, isso não vai acontecer por uma razão: perdemos o bonde da história. Temos que inventar outro para tomar. Para qualquer coisa que se olhe além de comida ou minérios enterrados no solo, existem pelo menos dez países no mundo que produzem melhor e mais barato que o Brasil. Tente. Da escova de dentes à turbina hidroelétrica, do ímã de geladeira ao aparelho de ressonância magnética, por que alguém vai comprar mais caro, menos eficiente e mais longe? Quando se adquire um imóvel e não se consegue pagar, o imóvel está lá para abater a dívida. E quando se torra dinheiro comprando um celular que até ligação telefônica faz por cinco vezes o seu preço só para exibi-lo como troféu? Viver como se essa não fosse a realidade é irresponsabilidade: a conta chegou! Mas passar os dias no amargor existencial repetindo o mantra “antigamente isso custava a metade” só aumenta o vão entre a tragédia e a reação. Precisamos nos reinventar. Jogar no lixo práticas insustentáveis, cortar os excessos, mudar alguns conceitos e olhar para frente e para o alto, senão o abismo nos engole de vez.

Gustavo Varella Cabral é advogado, professor, especializado em Direito Empresarial e mestre em Direito Constitucional.

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