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Colunistas 29/04/2015

Federação?

cadu done colunista metroUm dos pontos que mais me chamou atenção no imbróglio recente em torno da data do segundo clássico pelas semifinais do Mineiro foi a ausência de um ente imparcial, com ares absolutos e, claramente, dotado do poder de assumir para si a decisão da lide. Os clubes defenderam seus interesses. A detentora dos direitos de transmissão, quando o circo já pegava fogo, limitou-se a afirmar que aceitava mudar a partida para sábado desde que ambas as agremiações e a federação mineira anuíssem a esta sugestão. A declaração pode soar “ponderada”, mas precisamos ter timing: no instante dessa nota oficial, qualquer desavisado perceberia que as palavras nela incluídas tinham caráter de “me engana que eu gosto”. Afinal, o Atlético já deixara claro que não toparia a antecipação. A briga já se estabelecera. Já existia um cenário carregado de tensão, o conflito não se mostrava simples; necessária era certa firmeza, algum pulso, capacidade de se posicionar e buscar o justo; o tom “conciliatório”, ancorado, na verdade, em palavras evasivas e que, no fundo, representavam um “lavar as mãos”, naquela altura dos acontecimentos, significava o mesmo que nada.

Cheguemos à atuação da FMF. No frigir dos ovos, a impressão que ficou, até quando o presidente da entidade disse que “a culpa não era dele”, foi de falta de força para intervir. Antes do primeiro jogo entre Galo e Raposa, aquele rodeio para parecer sensato: “o número de horas de descanso, com o jogo no domingo, será…”. Fazia algum sentido. O Atlético jogava na quinta, antes do duelo regional. Mas, na partida de volta, o alvinegro não vivia esse mesmo cenário. Caso fosse aplicada a mesma lógica, o derby haveria de ser transferido para o sábado. Não foi o que aconteceu. Faltou dizer – supondo que outras razões não estavam por trás da aparente inércia: “eu não posso fazer nada, é a TV que manda”. A própria Globo poderia argumentar: “eu pago, planejo, tenho compromissos com meus clientes. Não posso desfazer de certos combinados. Por isso, não abro mão do embate no domingo…”. Essa fala do canal, bem escrita, conseguiria fugir de qualquer ranço de deselegância. Dava para se explicar utilizando a lógica empresarial e/ou da ética envolvida no dilema “quebrar ou não acordos” – se é que isso estava na jogada.

Enfim… Da maneira como tudo ficou, uma sensação de irresolução residiu nos observadores mais atentos e que fogem de devaneios clubísticos. Mais do que isso, surgiram as seguintes questões: qual é o papel da FMF? Qual será a autonomia dela? E da TV? O que faz a federação? Esse pouco poder que pareceu ter na prática condiz com o status que carrega de dona, ou no mínimo protagonista, na gestão do campeonato? E nessa esteira, uma entidade “apenas secundária” na engrenagem – já que a TV decide – trabalha com relevância suficiente para receber os milhões que desembolsa – não invoco ilegalidade; o que indago é só se faria sentido pagar esses montantes? Vale refletir…

Cadu Doné é comentarista esportivo da rádio Itatiaia e da TV Band Minas, filósofo e escritor. Escreve no Metro World News de Belo Horizonte