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Colunistas 28/04/2015

A conta da poluição ficou para o carioca

xico-vargas colunistaO caminho mais curto para tornar impune um crime é atrelar-lhe as causas à omissão do poder público. O Ministério Público Federal descobriu isso há 12 anos, quando tentou pendurar na Cedae a conta da destruição dos rios e lagoas e da zona oeste da cidade. Derrapou feio, apesar de ter conseguido liminar que mandava a empresa acabar com a bagunça. Mas nem isso, nem a multa diária de cinco mil pratas, desde 2003, fizeram a Cedae se mexer.

Sequer essa conta – hoje em torno de R$ 25 milhões – foi paga. Em lugar de abrir o cofre, a Cedae conseguiu um perito que embaralhou as cartas e socializou a sujeira. Juntou a ocupação desordenada e a falta de fiscalização, e tirou a empresa do foco. O crime ganhou também as digitais da prefeitura e do Estado. Quando o Ministério Público se mexeu, há mais de uma década, a ocupação desenfreada das margens de lagoas e cursos d’água da região mal havia começado.

Se nada conseguiu então, menos ainda agora. Já na época, a direção da Cedae saltava entre as brasas. Aluízio Meyer, que a dirigiu entre 2003 e 2005, foi condenado por improbidade administrativa. Logo depois, denunciado por envolvimento no escândalo dos convênios fraudulentos com ONGs, no governo Rosinha. Wagner Victer, que assumiu em 2006, tinha pendor por manchetes de jornais. Criou slogans que convidavam a poupar água – a mesma que vazava pelas ruas.

Seu sucessor, Jorge Ferreira Briard, foi recebido pela crise dos reservatórios, que botou a cidade diante do racionamento, mas, em nenhum momento, deixou sem água os lava-jatos – herança de Victer. Se pouco tratou da água que desaparecia das torneiras até poucos meses, nem chegou perto da podridão que já tomou rios e lagoas, e agora avança sobre as praias que restam.

Para ficar só na zona oeste, nos tempos que correm não faltam ali aglomerados de desordem urbana. Grande parte fincou raízes e se espalhou com ajuda e incentivo de funcionários públicos – subprefeitos, por exemplo – em busca de lugar na Câmara Municipal ou na Assembleia. Brotam as favelas que despejam diariamente toneladas de esgotos nas lagoas e rios de Jacarepaguá, da Barra e da região das Vargens.

Estivesse a Justiça empenhada em botar um freio na orgia daria vida ao artigo 54, parágrafo 3º da lei que rege os Crimes Ambientais. Ali diz que a omissão diante de dano ambiental grave ou irreversível significa cinco anos de cadeia para os responsáveis. Enquanto for só conversa, a conta dessa sujeira toda continuará sendo paga pelo carioca.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’, de segunda à sexta-feira, no jornal ‘BandNews Rio 2a edição’, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br.