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Colunistas 24/04/2015

No nada

antonio-carlos leite colunista A brincadeira se tornou comum nos últimos dias: Dilma Rousseff se antecipou à aprovação da legislação pelo Congresso e terceirizou o governo, entregando a articulação política para Michel Temer e o comando econômico a Joaquim Levy. Algumas brincadeiras têm fundo de verdade. Nesse caso, a verdade está escancarada – e nela reside um dos maiores problemas do país. A presidente com fama de gerentona parece não ter segurança para recolocar a economia do país nos trilhos. Não é um grande problema. Itamar Franco nada sabia de economia, mas foi suficientemente competente para escalar o time responsável pela elaboração do Plano Real (Fernando Henrique, ministro da Fazenda por conta do destino, foi o responsável pela negociação das medidas no Congresso e acabou ganhando uma fama superior à sua participação no processo, mas essa é outra história). Problema mesmo é o fato de a presidente não ser política nem fazer questão de gostar de política e dos políticos. Seu antecessor e criador sempre foi um ser político, desde as articulações sindicais, passando pela radicalização partidária até descambar no Lulinha Paz e Amor, capaz de achar virtudes até mesmo em Jader Barbalho.

Dilma gosta do poder político, mas não da política do poder. Como resultado, temos uma crise de governabilidade: não há comando, não há liderança. E há um espaço cada vez mais ocupado pelos comandantes do Congresso, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Raposas políticas, com todos os sentidos dessa expressão, os dois, por conta da pressão exercida contra a presidente, deram ao parlamento um peso impensável até pouco tempo atrás. Dilma não chega a ser refém do Congresso, mas em vários momentos teve de se submeter aos desejos e caprichos da dupla – o caso da devolução da MP da desoneração da folha de pagamento é um dos exemplos mais recentes, mas não o único. Em resumo, temos uma presidente enfraquecida, um companheiro de chapa encarregado de fechar as negociações políticas, e deputados e senadores subitamente fortalecidos. Estamos num espaço indefinido, entre o presidencialismo fragilizado e o parlamentarismo não assumido. Ou seja, vivemos num limbo. Daí esse sentimento de impotência, de incerteza, de desconfiança em relação ao futuro. É essa a sua sensação? Natural: ela é compartilhada por pessoas com um mínimo de consciência dos fatos, sabedoras de que o poder se desgasta quando está nas mãos de quem não gosta de exercê-lo em sua plenitude. Quem pensar e atuar de forma diferente estará submetendo o país a uma brincadeira. De enorme e perigoso mau gosto…

Antonio Carlos Leite é jornalista há 26 anos. É diretor de Redação do Metro, diretor de Jornalismo da Sá Comunicação e escreve às sextas-feiras neste espaço.