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Colunistas 23/04/2015

Debret no século XXI

jorge-nascimento colunistaLembro que, quando criança (parece que foi ontem), a possibilidade do ano 2.000 e do Terceiro Milênio era uma grandiosidade quase infinita. A partir da visão da criança, no mundo de trânsitos eficazes entre realidades e fantasias, viajava. Transitava do mundo de pedra dos Flintstones para a comodidade tecnológica dos Jetsons. Era a viagem de todos os dias, depois do banho para ir à escola. Os desenhos animados alimentavam o jogo de relativas continuidades com aqueles tempos, com aqueles mundos imaginários… Agora, nestes primórdios de século XXI, vejo que essencialmente muita coisa permanece. Noto, por exemplo, em certas cenas do cotidiano, como as marcas da história se mostram, nuas e cruas. Nas maneiras como as hierarquias se apresentam e são representadas transparece o peso com que a carga das histórias nos encangalha. Isso mesmo, “encangalha”, palavra bonita que quer dizer “colocar cangalha em besta de carga”. Falo isso porque a sociedade brasileira repercute muitos dos costumes e das práticas antigos, alguns são frutos da mentalidade senhorial, em que quem manda sabe e quem ignora obedece. Quem manda tem poder, dinheiro. Uns são do camarote; outros, cordeiros. Há quem seja sempre da área social, há quem inexiste todo dia na área de serviço. A classificação pela condição social se torna cada vez mais evidente (e ainda vendem a falácia de que todos têm as mesmas oportunidades). E o que tem isso a ver com a História, o passado e o futuro? Tudo. Há quinhentos anos uns são ensinados a mandar e se fazer obedecer, a outros sobra a servidão e, talvez, cometer pequenas subversões e vinganças contra a máquina que os devora dia a dia: comendo seu pensamento, amortecendo suas vontades, pondo eternos obstáculos em seus caminhos. Acho que não estou sendo claro, creio que falta lucidez. Então recorramos a um exemplo, os exemplos podem ter a capacidade de dizer aquilo que é tão difícil expor e analisar. Vamos lá. Estava eu em Laranjeiras, bairro tradicional do Rio de Janeiro, pensando no trajeto que Machado de Assis fazia por aquelas ruas que contam histórias… Vi um casal jovem, trinta e poucos anos, à frente desse casal iam duas jovenzinhas negras, cada uma empurrava um carrinho de bebê, os bebês eram branquinhos e muito parecidos, as jovens negras vestiam roupas brancas também. E vi que aquela cena era um quadro pintado, por Debret, aqui e agora, no início do século XIX.

Jorge Nascimento é doutor pela UFRJ, professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes e escreve quinzenalmente neste espaço