logo
Colunistas
Colunistas 15/04/2015

Sem dias

fernando-carreiro-colunistaNa última sexta-feira, os governos, estaduais e federal, puseram fim à lua de mel com a sociedade. São os chamados ‘Cem dias’, expressão derivada do século XIX, à época do retorno do imperador francês Napoleão I ao poder, após sua fuga da Ilha de Elba. Na contemporaneidade, é o período em que governantes, imperadores ou não, tem avaliada pelo cidadão, e pela imprensa, a condução de suas gestões no período que compreende os três primeiros meses de governo. As análises nos jornais se estenderam pelo fim de semana: avaliações sobre a popularidade; contabilidade das promessas de campanha não cumpridas; efeitos da crise econômica no caixa dos entes federados. No frigir dos ovos servidos no café da manhã dos mandatários, os resultados não foram de uma omelete homogênea e farta. Mas há aqueles mais otimistas, que jogam na crise a culpa pelos problemas – como se parte da crise não fosse culpa deles. Há os que desferem golpes contra a oposição – como se vivêssemos em uma ditadura e não na democracia que exige o contraditório. O cidadão, do lado de cá, vive os seus “sem dias”. Há tempos não fazemos uma análise da gestão de nossas escolhas. Quando a fazemos, encontramos problemas perdulários desde os tempos de Napoleão. A ausência de pensamento político cotidiano é um deles. O último domingo foi marcado por novas manifestações, menores que as de um mês atrás, embora com a mesma efemeridade de antes. Pesquisa Datafolha divulgada um dia antes dos manifestos indica que apenas 12% de todos os que defendem o impeachment  da presidente Dilma Rousseff sabem que é o vice, Michel Temer, quem assume em seu lugar. O mesmo levantamento mostra que 15% desses imaginam que o segundo na linha sucessória é Aécio Neves, segundo colocado nas eleições de outubro do ano passado. O exemplo citado já é suficiente para atestar que o vazio domina as massas. Mas pode-se citar a ausência de discurso: há os que militam pelo fim da corrupção. Curiosamente, muitos desses são os que não devolvem troco a mais dado errado pela moça da padaria; os que furam fila no banco e no supermercado; os que burlam as regras do condomínio onde moram; os que sonegam impostos em suas empresas. Mas estão na rua, vários deles pensando ser a corrupção palavra inerente somente ao vocabulário da Petrobras e dos partidos políticos. O Brasil precisa acordar. Não se faz um país democrático sem nossa fiscalização diuturna e a consciência de que voto não é algo descartável que se recicla a cada quatro anos.

Fernando Carreiro é jornalista especializado em comunicação eleitoral e marketing político.