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Colunistas 15/04/2015

Pior dos mundos

cadu done colunista metroAndo meio obcecado pelo tema “coxinhização do futebol”, em suas diversas ramificações, suas incontáveis manifestações. Tenho abordado de maneira recorrente os diferentes desdobramentos desse fenômeno, suas variadas ligações com outros fatos. Entre os intermináveis tentáculos deste vasto assunto, um dos que mais me fascina é o que desvenda, escancara a mudança de perfil dos públicos nos estádios. Há algum tempo, está claro, a atmosfera nas “arenas” perdeu em emoção, poesia, “verdade”. Longe do povo, daqueles que realmente se importam simplesmente com o “estar ali”, e próximo de uma plateia viciada em selfies, Facebook, Instagram e adjacências – cujo objetivo, mais do que realmente viver as experiências, curtir o momento, é parecer ter uma vida legal, interessantíssima –, o clima nos campos de futebol brasileiros tem se tornado cada vez mais insosso, sem alma. Parece faltar algo para quem conheceu grandes partidas dentro de uma chamada “cultura de arquibancada”.

Refletindo a respeito do tópico concluí, porém, que, no todo, nossa situação é pior do que imagina-se nessa seara. Utilizemos o restante do futebol sul-americano como alvo de comparação. Em termos estruturais, nossas “praças esportivas” são superiores, mais bem equipadas. Argentinos, colombianos, chilenos e uruguaios, por outro lado, inegavelmente, mantêm consigo ainda acessa a chama da “torcida de verdade”, de “raiz”. Nesses países, o futebol e as arquibancadas ainda pulsam, causam arrepios, apaixonam; têm grande poder de angariar novos seguidores por si só; por sua beleza, pelo fervor – quase sempre imaterial, nada palpável – que contagia, emociona. No duelo arena “limpinha e sem vida” versus estádios com aquele aspecto tosco, mas palcos de manifestações culturais bem mais genuínas, espontâneas, não tenho dúvida de que fico com os segundos.

Para piorar, viajemos ao Velho Continente. Lá – principalmente na Inglaterra – a elitização do futebol também vem sendo debatida, criticada. Estádios bonitos, modernos e cheios; ingressos caros; falta de vibração dos públicos. Esse é, basicamente, salvo exceções, o cenário. Perceberam alguns detalhes? “Estádios bonitos, modernos e cheios”. Temos isso? Não! As novas arenas ficaram legais. Ponto. Não passam disso. Em termos de beleza e conforto, qualidade do serviço oferecido ao torcedor, entretanto, seguem muito atrás de boa parte dos campos europeus. Mesmo com programas de sócio, nossos públicos são ridículos.

Conclusão? Temos o pior dos mundos. A falta de vibração das torcidas europeias, um clima bem menos interessante e verdadeiro do que aquele vivido na América latina em geral, sem atingir o patamar de excelência em termos de estrutura, faturamento, ocupação dos assentos e organização do Velho Continente. Temos, enfim, arenas apenas “melhorzinhas”; mas vazias, não propiciando ganhos extraordinários de conforto, caras, pagas com dinheiro público e, principalmente: sem graça…

Cadu Doné escreve no Metro World News de Belo Horizonte