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Colunistas 14/04/2015

Desfeita enfim miragem das lagoas limpas

xico-vargas colunistaFinalmente brotou alguma verdade em relação às lagoas da Barra e de Jacarepaguá: não haverá água limpa até 2016. Sabe toda aquela história sobre dragagem, ilhas de detritos e Unidades de Tratamento de Rios? Foram finalmente tragadas pela realidade. Não que – desta vez, pelo menos – falte dinheiro. Mas, para variar, por incúria perdeu-se o prazo. A conversa se arrasta há pelo menos quatro anos e a secretaria estadual do Ambiente sequer sabe o volume de lodo a ser retirado ou de detritos que seriam usados para dar forma às anunciadas “ilhas ecológicas”, ficção criada no governo anterior.

Na verdade, as ilhas seriam recurso semelhante aos “envelopes” de lodo usados no canal do Cunha, em Ramos, por falta de lugar onde depositar a sujeira. Descritos por Carlos Minc, então secretário, como a maravilha sobre a qual um dia a população veria belos gramados ladeiam hoje um escorredouro de água podre, carregada de óleo e doenças. Nas lagoas de Jacarepaguá, essa lorota serviria também para manter o fundo estável e impedir que o solo rico em turfa das margens – intensamente aterradas e ocupadas – continue afundando.

Naufraga, assim, a penca de promessas que frequentou dezenas de discursos e entrevistas ao longo da última década e meia, a partir do governo Rosinha. Na época, a governadora vendeu a miragem das dragas e, por curto período, botou-as a chafurdar nas lagoas de Jacarepaguá e da Tijuca. Pura figuração. Nem as 370 carcaças de pneus encontradas na primeira em poucos dias foram moídas e aproveitadas em pavimentação, como prometido. Ficaram jogadas nas margens até que uma campanha da prefeitura contra a dengue, um ano depois, lhes deu sumiço porque juntavam água da chuva e tinham virado criadouro de mosquitos.

Desde a ocupação das margens de lagoas e rios da Barra e de Jacarepaguá, o projeto de limpeza das águas anda em círculos. De dragas a barquinhos que recolhem lixo, passando por barreiras para conter detritos sólidos, as mágicas se sucederam. As UTRs – Unidades de Tratamento de Rios – foram a fantasia mais recente introduzida na conversa por Minc há alguns anos como remédio eficaz e agora defenestrada pelo prefeito por ser cara e inútil.

Praticamente 15 anos depois de percebida a lambança, a cidade está de volta ao ponto de partida. A conhecida baixa qualificação da Cedae na construção e operação de redes de esgoto, uma questão do Estado, em oposição à ocupação desordenada e à baderna no uso do solo patrocinada pela prefeitura. Para repetir, com as lagoas, a vergonha da baía de Guanabara, só falta o poder público tomar pelo mundo dinheiro para a despoluição e simplesmente dar-lhe outro destino.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’, de segunda à sexta-feira, no jornal ‘BandNews Rio 2a edição’, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br.