logo
Colunistas
Colunistas 14/04/2015

As veias abertas de Galeano

diego-casagrande-colunistaEu tinha 14 anos quando li “As veias abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano. Ganhei emprestado de uma professora que também me deu “Carajás: a invasão desarmada”. Doutrinação pouca é bobagem. Estávamos na metade daqueles anos 80, de um anseio angustiante por democracia, uma efervescência cultural como nunca antes e, sobretudo, a esperança de dias melhores. Havia uma insatisfação grandiosa nas camadas médias da sociedade brasileira, insuflada por uma inflação crescente, desemprego e estagnação na economia.

Naquela época eu já me interessava bastante por política e, como boa parte dos adolescentes, pela minha pouca experiência e leitura não tinha grande capacidade de discernimento. Lembro de ficar extasiado ao folhear as primeiras páginas de “As veias abertas…” Quanta lucidez em frases de efeito ao colocar a América Latina como um organismo saqueado sem dó nem piedade ao longo de séculos. Quanto amor por este lado empobrecido da terra. “O ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno… fortunas que a natureza outorga e o imperialismo usurpa.” Ou ainda: “Para os que concebem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos. Outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graças ao que nós perdemos… É a América Latina, a região das veias abertas…”

Fui crescendo, buscando racionalidade, e o distanciamento do pensamento de Galeano foi natural. Ele atribuía aos outros as causas do nosso atraso. Entendi logo que somos nós mesmos que nos boicotamos, insistindo em não adotar o livre mercado de verdade e dar um choque de educação nas massas. Os 12 anos da esquerda no poder em nosso país reforçam minha crença. O pensamento do uruguaio envelheceu e morreu. O curioso disso tudo é que sucumbiu para ele também. No ano passado, Galeano refutou sua própria obra: “Eu não seria capaz de reler esse livro. Cairia dormindo. Essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida e meu físico já não a tolera… “Veias Abertas” pretendia ser um livro de economia política, mas eu não tinha o treinamento e o preparo necessários”, declarou.

Ontem, Galeano partiu. Tomara que suas últimas palavras possam reparar, ainda que parcialmente, o estrago que seus escritos causaram à minha geração e à própria América Latina, insuflando movimentos radicais e atrasados. E a vida segue.

Diego Casagrande é jornalista profissional diplomado desde 1993. Apresenta os programas BandNews Porto Alegre 1a Edição, às 9h, e Ciranda da Cidade, na Band AM 640, às 14h.