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Colunistas 07/04/2015

É mais em baixo o buraco da pacificação

xico-vargas colunistaQuase cinco anos depois de ter subido o Alemão desmontando barricadas com blindados da Marinha e enxotado traficantes feito baratas pela estrada do Itararé, a Polícia Militar, que agora instalou tonéis de concreto para bloquear o caminho dos bandidos, produziu o encerramento que faltou ao discurso do coronel Frederico Caldas, relações públicas da PM. O “buraco” antevisto por Caldas, para onde a cidade iria se a pacificação virasse pó, é aonde já chegou o programa no conjunto de favelas.

O Alemão é uma das áreas de baixa renda onde o programa mais investiu. Foram R$ 721 milhões em pelo menos metade das 16 favelas que formam o conjunto. Isso torna a favela uma das áreas de baixa renda em que o Estado mais botou dinheiro em melhorias urbanas e sociais, ainda que se possa abstrair dessa conta a bobagem do teleférico. Nada disso, porém, integrou o Alemão à cidade ou ajudou a favela a virar bairro onde vigora a lei.

Ao contrário. A volta logo depois dos traficantes e a reorganização das quadrilhas, então dedicadas ao varejo das drogas, embora tenham sido percebidas não foram eliminadas pela polícia. De lá para cá, estenderam raízes e hoje utilizam bem sucedida técnica de guerrilha que as tornam quase inexpugnáveis. Não foram poucos, por exemplo, os casos de crueldade explícita de bandidos encurralados para escapar da polícia.

No curso de cinco anos, em pelo menos dois episódios de confronto com PMs traficantes sob cerco atiraram em moradores na rua – uma criança e um adulto – para interromper o tiroteio e sumir da vista. Para quem vive na favela, no entanto, barbárie dessa natureza sequer oferece possibilidade de revolta. Ninguém levanta a voz contra o criminoso que mora ao lado, manda desde sempre no pedaço e está botando a polícia para correr.

Mas quando o tiro parte da arma da polícia é diferente. Primeiro porque a polícia – a PM, principalmente – sedimentou o hábito de só entrar em favela de arma na mão. Depois porque é empregada para proteger, mas usa a função para matar, como fez com o menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, que brincava com o celular na porta de casa, no Alemão. Isso joga na vala o trabalho inteiro de uma política de pacificação.

Enquanto a PM tiver o dedo no gatilho não haverá reocupação policial que dê jeito ou UPP social capaz de mudar o juízo que a população faz do Estado. Quando alertou o carioca para a ameaça de ir parar no buraco caso fracasse o programa de pacificação, Frederico Caldas esqueceu o público interno. Não está na população, mas na PM que mata inocentes a maior ameaça às UPPs.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro World News do Rio de Janeiro