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Charles Ak 47

mario-sergio-duarteUma matéria publicada no dia 10 pela rede de notícias Al Jazeera América, mostrando a participação de traficantes de drogas na organização e financiamento de times de futebol de uma favela do Rio, ganhou espaço na mídia brasileira, e evidenciou que o narcotráfico continua com pleno mando de campo na principal divisão da categoria esportiva do estado paralelo.

A Vila Aliança, uma extensa comunidade de Bangu chamada de favela pela leitura estereotipada com que identificamos pobreza e crime, tem, na verdade, uma arquitetura de bairro de periferia, com pouca infraestrutura e baixa qualidade de serviços disponíveis, mas nunca foi uma favela; no mínimo em seu desenho original. Contar sua história seria demasiado longo para este artigo, mas é bom esclarecer que lá ainda não tem UPP.

Mas, também seria o fim se tivesse! Seria um claro e derradeiro sinal de derrocada do principal programa da política de segurança do Rio de Janeiro, se traficantes desfilassem em uma favela pacificada sua estética audaciosa de imposição e sedução de corações e mentes, principalmente durante o principal acontecimento social e esportivo da comunidade que é o seu campeonato de futebol.

Não é nenhuma novidade a estratégia dos criminosos de promover benefícios sociais onde vivem; de buscar amenizar a imagem finalística de bandidos que verdadeiramente são, figura inconfundível para população geral, com outra falseada em benemerência, como padrinhos e mecenas pós-modernos do meio que parasitam e sugam, se alimentando  dos escassos recursos econômicos da população trabalhadora.

É triste, mas esses trastes ainda preenchem o imaginário de milhares de crianças das comunidades pobres que dominam. Sem ferramentas adequadas de julgamento, o que é compreensível, os meninos, principalmente, acabam enxergando nos criminosos um modelo, uma opção de futuro promissor de grande poder e influência. Nada é mais esclarecedor do que este trecho da matéria do Al Jazeera: “Se você perguntar a qualquer adolescente (da Nova Aliança) qual o seu sonho, ele vai te dar três respostas: um jogador de futebol, um cantor famoso samba ou o dono da favela”.

Claro, sempre tivemos pistas disso, dessa inversão dos valores sociais reconhecidos como válidos pelos nossos pactos sociais legítimos, com outros de franco caráter transgressivo, os quais alguns pensadores da área de humanidades flexibilizam por “desviantes”. Para o compositor Jorge Bem Jor, por exemplo, eles seriam os “Charles 45”, na canção que nos brindou há alguns anos:  “Charles, Anjo 45, protetor dos fracos e dos oprimidos, um homem de verdade, com muita coragem”.

Os “Charles” ainda são cartolas do campeonato da Nova Aliança . Já não são “45”, mas “AK 47”. Eles só não sabem que vão perder o mando de campo para os “UPP 41”.

O coronel Mário Sérgio Duarte, autor do livro “Liberdade Para o Alemão – O Resgate de Canudos”, escreve às quartas-feiras no Metro Jornal do Rio de Janeiro.

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